Os Pistoleiros da Noite (1962)

O segundo filme do realizador Sam Peckinpah, na altura com “apenas” 36 anos, é um magnífico tributo ao género western, que na altura já se encontrava em fase descendente e é o filme que estabeleceu Peckinpah como um grande realizador. Esse tributo é ainda mais tangente quando se constata que tem a participação de dois grandes actores do género: Randolph Scott, actor reconhecido pelos seus papeis em westerns de Budd Boetticher e que aqui tem a sua última interpretação antes de morrer, e Joel McCrea. Os actores, ambos com mais de 60 anos de idade na altura, participaram juntos em centenas de westerns, sendo Os Pistoleiros da Noite, um excelente resumo e epilogo das suas carreiras.

Originalmente, Scott era para interpretar o papel de Steve Judd e McCrea o de Gil Westrum, mas ambos aperceberam-se que o filme resultaria melhor se trocassem de papéis e submeteram-na à aprovação do produtor Richard Lyons. Após ter concordado com a troca, Lyons partiu para a escolha do realizador e acabou por contratar Peckinpah. A participação deste estendeu-se para além da realização, tendo alterado o argumento original, em que Westrum morria no final, e acrescentou alguns diálogos, entre eles a famosa frase “All i want is to enter my house justified” (tudo o que eu quero é entrar em casa de consciência tranquila), que é atribuída ao pai do realizador. Peckinpah também foi o responsável pela escolha de Mariette Hartley para o interpretar o papel de Elsa, tendo supervisionado pessoalmente o seu guarda-roupa: Hartley comentou, em entrevista, que o realizador sempre gostara de peitos grandes e deu ordens ao responsável pelo guarda-roupa do filme para aumentar o seu peito; de tal forma que no final dos dias de filmagens, ela andava torta devido aos enchumaços.

Para o papel de Billy Hammond, o mineiro que se casa com Elsa, a escolha recaiu inicialmente em Robert Culp, mas este recusou por considerar que o papel prejudicaria a sua carreira. A sua recusa, de que viria a arrepender-se, magoou Peckinpah que nunca mais o voltou a convidar para participar nos seus filmes. James Drury seria o escolhido para interpretar o mineiro.

A banda sonora do filme, da responsabilidade de George Bassman, veterano compositor cuja carreira foi interrompida por ter sido incluído na lista negra de Hollywood, é melódica e nostálgica, completamente diferente da que é usualmente associada a Peckinpah. Grande parte das bandas sonoras dos filmes do realizador foram feitas por um dos seus habituais colaboradores, Jerry Fielding, que só se viriam a conhecer anos mais tarde.

Os Pistoleiros da Noite teve um orçamento de 813 mil dólares e demorou 26 dias a ser rodado. Trabalhando pela primeira vez ao lado do director de fotografia Lucien Ballard e utilizando o sistema CinemaScope, Peckinpah tira o máximo proveito dos exteriores do filme: numa primeira instância a belíssima paisagem do Lago Mammoth, na Califórnia, e posteriormente os estúdios da Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), utilizados como recurso devido a uma fortíssima tempestade de neve que obrigou a equipa a abandonar o lago. A tempestade foi um problema menor para Peckinpah: Joseph R. Vogel, que entretanto substituíra Sol Siegel como chefe-executivo da MGM, deixou-se dormir durante o visionamento do filme e declarou, posteriormente, que Os Pistoleiros da Noite era o pior filme que alguma vez tinha visto, reduzindo as hipóteses do filme em conseguir uma distribuição condicente.

Muito embora a sua fraca distribuição (devido ao incidente com Vogel, o filme foi “reduzido” à condição de série B), Os Pistoleiros da Noite conseguiu atrair a atenção dos críticos e aos poucos foi ganhando o seu espaço. Hoje em dia, o filme é considerado um dos melhores do realizador, que se explica pelo facto de Peckinpah estar sóbrio na altura, que, posteriormente, se tornado uma figura controversa e agressiva devido ao seu problema com o álcool. Mas é já possível ver aqui as bases do cinema de Peckinpah, em especial a violência, e Os Pistoleiros da Noite é uma magnifica história de redenção e solidão.


Ride the High Country Metro-Goldwyn-Mayer Estados Unidos, 1962, 94 min., western. Realizador: Sam Peckinpah. Argumento: N.B. Stone Jr., Robert Creighton Williams, Sam Peckinpah. Actores: Randolph Scott, Joel McCrea, Elsa Knudsen, Ron Starr, Edgar Buchanan, R.G. Armstrong, Jenie Jackson, James Drury

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