Cleópatra (1934)

Cecil B. DeMille ficou conhecido pelos seus grandiosos dramas históricos deste que realizou, em 1917, Joana D’Arc e o realizador viu na história da Rainha do Egipto os ingredientes necessários para mais um dos seus épicos. A produção do filme demorou longos meses, que foram gastos, na sua maioria, na pesquisa de documentos históricos e na produção dos grandiosos cenários e do extravagante guarda-roupa.

A presença da actriz Claudette Colbert como protagonista de Cleópatra parece um pouco fora de contexto, já que a actriz era, na época, mais conhecida como comediante, tendo-se destacado, nesse mesmo ano de 1934 na comédia romântica Uma Noite Aconteceu, que lhe valeu o Óscar de Melhor Actriz. No entanto, Colbert é um dos pilares do filme e brilha, literalmente, como Rainha do Egipto. Tal também se deve ao extravagante guarda-roupa, que deixa muito pouco à imaginação, num verdadeiro desafio à moralidade da época. DeMille sempre injectou uma certa quantidade de sexo e pecado nos seus filmes e Cleópatra prova isso mesmo. Tal só foi possível devido ao facto de o Código de Produção apenas ter entrado em funcionamento poucos meses após a estreia do filme. Cleópatra é um bom exemplo dos excessos que o Código de Produção queria evitar.

A excelente interpretação de Colbert não fazem transpirar as dificuldades que a actriz passou durante as filmagens, nomeadamente o facto de ter estado doente durante grande parte da rodagem do filme. O ataque de apendicite, que a actriz contraiu na selva durante a rodagem do seu filme anterior (Four Frightened People, também de DeMille), provocou-lhe grandes dores, que não lhe permitia estar muito tempo de pé e o pesado guarda-roupa que a actriz teve de usar apenas veio complicar mais a sua situação. Uma vez ultrapassada a doença, Colbert teve de enfrentar outra dificuldade: o seu receio de cobras. Sabendo disso, DeMille adiou as cenas que envolviam cobras até ao último momento, mas a actriz teve mesmo de contracenar com os répteis.

Embora tenha sido um sucesso de bilheteira e nomeado a vários Óscares, entre eles o de melhor filme e ganho a estatueta dourada para a melhor fotografia, Cleópatra tem vivido à sombra de outras versões, nomeadamente a de 1963, protagonizada por Elizabeth Taylor, e até da versão de 1917, interpretada por Theda Bara. Como curiosidade refira-se que DeMille pediu para assistir a esta versão, mas como não existia nenhuma cópia em Los Angeles, uma teve de ser remetida dos escritórios da Fox Film em Nova Iorque. Após o visionamento do filme, este foi devolvido ao arquivo do estúdio, onde acabou por ser destruído num incêndio. DeMille foi uma das últimas pessoas a ver o lendário filme.

Muito embora a grandiosidade da sua produção, Cleópatra é um filme superficial, reflexo da sua época (o filme foi produzido em plena Grande Depressão e Cleópatra é uma mulher que vence todas as adversidades) e do estilo do seu realizador.


Cleopatra Paramount Pictures,1934, Estados Unidos, 100 min., drama. Realizador: Cecil B. DeMille. Argumento: Waldemar Young, Vincent Lawrence, Bartlett Cormack. Actores: Claudette Colbert, Warren William, Henry Wilcoxon, Joseph Schildkraut, Ian Keith.

Júlio César e Marco António tentam conquistar o Egipto, mas têm de enfrentar a feroz Cleópatra.