As Duas Feras (1938)

Em pleno período do studio system, Howard Hawks era um produtor e realizador independente, sem qualquer ligação duradoura a um estúdio. Em 1938, assina um contrato de três filmes com a RKO Radio Pictures e o primeiro projecto proposto foi a adaptação ao grande ecrã de “Gunga Din”, mas as negociações do argumento, actores e orçamento caíram num impasse e Hawks virou a sua atenção para a história de Hagar Wilde, “As Duas Feras”. O estúdio ficou surpreendido com a escolha, mas como precisava de um último projecto para Katharine Hepburn, cuja ligação com o estúdio não foi o sucesso esperado, avançaram para a produção do filme.

Hawks insistiu que a própria Hagar Wilde escreve-se o argumento, em conjunto com o argumentista Dudley Nichols, e aquela, muito relutantemente devido a uma má experiência anterior, aceitou ir para Hollywood. Nichols, mais conhecido pela sua colaboração com o realizador John Ford (O Denunciante tinha ganho o Óscar para o melhor argumento no ano anterior), não tinha muita experiência em escrever comédias, mas a colaboração com Wilde foi de tal forma forte, que os dois apaixonaram-se e o romance de As Duas Feras reflecte o dos seus autores.

Um dos pedidos de Hawks aos argumentistas foi o de que a personagem de Susan Vance fosse escrito com Hepburn em mente e, na realidade, é difícil perceber onde acaba a personagem e começa a personalidade da actriz. No entanto, Hepburn sentiu muitas dificuldades no início, já que nunca tinha tentado este tipo de comédia e o seu esforço inicial traduziu-se num fracasso. Para a ajudar foi contratado o comediante Walter Catlett, que a acompanhou durante as filmagens, tendo sido criado, inclusive, o papel do guarda Constable para o manter perto da actriz.

Vários actores foram convidados para interpretar o ingénuo Professor Huxley, mas todos recusaram devido ao facto de o personagem não ser, à primeira vista, muito interessante e pela reputação de difícil de Hepburn. Cary Grant aceitou participar no filme, mas sentiu dificuldades na composição do personagem, não sabendo como o construir. Hawks sugeriu a Grant que utiliza-se o comediante do cinema mudo Harold Lloyd como modelo (incluindo os óculos) e o resultado é um personagem deliciosamente cómico, que utiliza a acrobacia e a comédia fisica como pilar centrar da sua acção.

Do restante elenco, destaque para Virginia Walker (Miss Swallow), uma descoberta de Hawks e que tinha contrato com o realizador, tal como Lauren Bacall anos mais tarde. No entanto, o futuro de Virginia Walker não era o grande ecrã, já que a actriz acabaria por fugir para o México com o irmão do realizador.

Partes fundamental do filme são os animais: Asta, a estrela canina de O Homem Sombra e Com a Verdade me Enganas, e Nissa, o leopardo. Nissa deu-se bem com Hepburn, que utilizava um perfume que agradava ao leopardo e só por uma vez os dois tiveram uma situação menos agradável, prontamente resolvida por Olga Celeste, a treinadora do leopardo. Se Hepburn conviveu bem com Nissa, contracenando os dois lado a lado, o mesmo não se pode dizer dos restantes actores, nomeadamente Cary Grant, que tinha medo do leopardo.

As filmagens de As Duas Feras decorreram numa atmosfera alegre e descontraída. De tal forma, que o filme excedeu o tempo e o orçamento previsto, com o consentimento do estúdio. Grande parte das piadas do filme não estavam no argumento e o bom relacionamento das várias pessoas envolvidas reflecte-se no ecrã.

O resultado final é um filme cheio de non-sense, com um ritmo alucinante e excelentes interpretações. No entanto, os executivos da RKO não gostaram do filme, que esperavam mais romance e menos comédia, tendo particularmente odiado os óculos de Grant e o cabelo de Hepburn. O público parece ter concordado com os executivos, tendo relegado o filme ao esquecimento. O fracasso de bilheteira de As Duas Feras levou Hepburn de volta aos palcos da Broadway onde interpretou a peça “Casamento Escandaloso”, que Philip Barry escreveu de propósito para a actriz. A peça foi um sucesso, de tal forma que Hepburn comprou os direitos cinematográficos e produziu e interpretou a versão cinematográfica também com grande sucesso.

Tal como quase todos os restantes filmes de Howard Hawks, As Duas Feras não foi nomeado para qualquer Óscar o seu falhanço comercial fê-lo cair no esquecimento durante mais de 20 anos. O filme só viria a ser reconhecido publicamente graças ao realizador Peter Bogdanovich que, em 1961, exibiu uma cópia de 16mm do filme no Museum of Modern Art, em Nova Iorque, e louvou as suas qualidades. Embora com os seus defeitos, As Duas Feras é um magnífico exemplo da screwball comedy e reflecte bem a qualidade do trabalho das pessoas envolvidas.


Bringing Up Baby RKO Radio Pictures, Estados Unidos, 1938, 102 min., comédia. Realizador: Howard Hawks. Argumento: Dudley Nichols e Hagar Wilde. Actores: Katharine Hepburn, Cary Grant, Charles Ruggles, Walter Catlett, Barry Fitzgerald, May Robson

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